Como pequenos e médios escritórios de advocacia enfrentam a crise

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A retração do PIB, o aumento significativo do dólar, e as incertezas regulatórias impactam também os pequenos e médios escritórios de advocacia: inadimplência de clientes é um de seus principais problemas, além da necessidade de corte de despesas.

Ao mesmo tempo em que obstáculos são encontrados, novos meios surgem como possibilidade de superar o momento de crise.

O JOTA conversou com alguns pequenos e médios escritórios para fazer um balanço de como está o desempenho das bancas e o que vêem como perspectivas para o futuro.

João Casagrandi Netto, da Advocacia Casagrandi, na cidade de São Paulo, comentou que a situação da economia dificulta a captação de novos clientes, pois há receio em se gastar com a contratação de advogados.

Casagrandi aponta a área de família como uma das mais afetadas, pois a pessoa que possui uma situação financeira ruim “acaba postergando a solução, deixando de formalizar uma separação para não entrar com processo judicial, o que geraria custo de honorários”.

“Do ponto de vista dos clientes, tive problemas de inadimplência, mas foram casos isolados, não há uma íntima relação com a crise”, afirma. Mesmo assim, com o objetivo de reduzir gastos, Casagrandi conta que adota em alguns dias da semana o home office, “para economizar despesas de transporte”.

Há seis meses

Felipe Magalhães, da banca Magalhães, Lemos Magalhães Sociedade de Advogados, também da capital paulista, diz que desde abril o cenário econômico vem afetando o escritório.

“Inclusive tivemos que readequar alguns de nossos clientes, pelo fato de a crise chegar aos prestadores de serviço, houve necessidade de novos acordos de contratos de honorários, reduzir gastos, cortar um pouco daqui e dali”, discorreu.

Sobre perspectivas, Magalhães pensa que pelo menos os próximos três meses serão instáveis, mas que talvez em 2016 haja uma melhora. Além disso, comenta o fato de que dessa crise o advogado pode se beneficiar, por oferecer serviços jurídicos.

Renato Cury, do Moreira & Cury Advogados Associados, localizado em Palmas (TO), diz que foi preciso cortar alguns colaboradores e gastos supérfluos.

“Fizemos quatro demissões desde o início do ano”, conta.

Para contornar os problemas, Cury admite que uma das vias é parcelar os honorários. “A nossa inadimplência aumentou muito, assim como as condições de contratação. Estamos parcelando os honorários com prazos maiores”, afirma.

Porém, Cury comenta que apesar da lucratividade ter caído, o movimento não causou tanto impacto. “Nosso nível de dedicação interna aumentou, o que vejo como algo positivo”. Desse modo, complementa mostrando que atualmente é “produzido mais com menos colaboradores”.

O advogado enxerga que o maior impacto é em relação a percepção futura, reiterando que está segurando investimentos e buscando um maior controle de gastos.

“Nossa maior preocupação é em relação às perspectivas futuras, pois projetamos um ano mais difícil em 2016 em decorrência da redução do fluxo em 2015”, diz, explicando que as demandas contratadas em 2014 ainda refletem no presente ano, o que afeta uma percepção imediata do impacto da crise.

“Nossa perspectiva é de retração do mercado. Estamos focados em manter nossos clientes e estabelecer parcerias que sobrevivam à crise. Novas contratações de colaboradores estão vetadas por enquanto, assim como novas despesas correntes”, esclarece, admitindo que só aguarda uma melhora do cenário para o ano de 2017.

Oportunidades

De Londrina (PR), o advogado Jossan Batistute, da banca Batistute, Peloi & Advogados Associados, diz que o escritório tem mostrado muito “arrojo em reduzir despesas e custos fixos”, mas que, por estar numa fase de investimentos e expansão, há “crescimento tanto do ponto de vista técnico e intelectual como estrutural”.

“Entendemos que, nas dificuldades, podemos encontrar oportunidades”, pondera o advogado, comentando que apesar de muitos clientes terem sofrido fortes reduções de receitas, gerando um pequeno aumento de inadimplência, há formas de contornar esses problemas.

Além disso, explica que os clientes sabem da possibilidade de colaboração jurídica na solução das dificuldade. “Nossos profissionais colaboram na busca de estratégias para recuperação de créditos, reanálise de dívidas dos clientes, auxílio jurídico em seus investimentos. Buscamos proporcionar reinvenções lícitas – empresariais, trabalhistas, consumeristas – para auxiliar no crescimento dos empreendimentos de nossos clientes”, explica.

Fábio Garcia Leal Ferraz, do Bernardini Advogados, em Ribeirão Preto (SP), por sua vez, explica que a crise não é uma novidade recente no Brasil, pois desde meados de 2008 há uma queda, que foi acentuada em 2011 e ainda perdura até os dias de hoje.

“Com isso, o Brasil, de sistema bancário rígido e economia supostamente protegida, passou a ir minando aos poucos sua estrutura financeira. O mercado estagnou e a economia entrou em colapso”, avaliou.

Nesse cenário, Ferraz analisa que apesar de muitas empresas terem sofrido demissões em massa, principalmente quando há maior instabilidade financeira, a advocacia é bastante requisitada, “seja para resolver conflitos, seja para planejar ações com menores riscos, seja para gerar economias com uma reestruturação jurídica e financeira”.

Em resumo, segundo Ferraz, os escritórios jurídicos não sofreram com falta de clientes, mas com a inadimplência dos clientes em crise. Contudo, o advogado enxerga que muitos escritórios viram no momento de crise oportunidades de se reinventarem e oferecerem serviços diferenciados com foco nas dificuldades econômicas do mercado, “buscando soluções específicas e adaptadas para cada tipo de dificuldade de cada cliente”.

Exemplificando com relação às áreas, Ferraz diz que a advocacia se destaca na tributária, “para se gerir os débitos tributários ou para um planejamento tributário das empresas”; na trabalhista, “para o empregado ou empregador, atuando no contencioso ou consultivo e visando assegurar o menor dos riscos nas demissões”; na gestão e recuperação de crédito, “atendendo clientes com dívidas já ajuizadas ou não, de modo a se criar uma boa gestão dos créditos e implementar possível plano de ação em busca da melhor reestruturação econômico-financeira aplicável caso a caso” e de direito societário, como, por exemplo, “com a criação de holdings para melhor gestão patrimonial”.

Por fim, revela que o escritório não sofreu tanto com a crise financeira, não tendo havido necessidade de demissões e nem retrações. “Houve um pequeno aumento da inadimplência, mas que foi facilmente contornado com nossos principais clientes”.

As perspectivas para Ferraz são de que, neste final de ano e no próximo, o país ainda vivencie a recessão.

“O ideal é que as pessoas, físicas e jurídicas, se programem para uma recessão prolongada, reestruturando-se financeiramente durante todo este período, pois somente sobreviverá à crise aquele que souber lidar com ela”.

Já para os escritórios, o advogado pondera que “os trabalhos mencionados continuarão sendo os mais procurados durante a recessão financeira, de modo que se o advogado souber militar nestas áreas jurídicas, poderá sair até mesmo ileso da crise”.

via: JOTA

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